Um poste teria este poema

se este poste desse para sua porta,

isso se eu soubesse,

qual é seu poste

qual é sua porta.

 

Um lambe-lambe teria este poema

se ele estivesse em sua rota do ônibus

mas também não sei a sua linha

nem se você vai

nem se você vinha.

 

Um pombo correio teria este poema

e ele sem duvida voaria por aí

mas entre todas as janelas, são tantas…

que muito talvez à outra pessoa

ele chegasse a ir.

 

Diante dessa pequenês

e desse pequeno poema anunciado

disponho aqui, esses versos,

na esperança que seja lido

(ou melhor achado).

Sem qualquer esperança de acerto

nem de retorno.

É um carinho em versos,

uma forma de sopro.

 

 

 

Passa

dezembro 10, 2019

Já passou de meia noite.

Para ser exato,

já é meio dia.

Onde estava a tristeza,

agora abunda alegria.

Que horas são?

Ih, perdi a hora.

Levarei saudades da aurora.

O amor da vida eterna

era lusco-fusco.

A velha raiva mortal

minguou com a lua cheia.

O fogaréu virou centelha.

Hoje sou da gentalha

amanhã posso ser nobreza.

A tarde não tarda nem falha.

Será e descerá. Sem dúvida.

Sempre tudo muda…

Disso eu tenho certeza.

 

Foto

dezembro 10, 2019

Um sorriso rápido

uma luz no rosto

um café gostoso

com fumaça lépida.

 

Um jantar pesado

soneca na rede

o olhar não mente

quando há amor.

 

Pulo na piscina

correr de cosquinha

melar de sorvete

o chão do vovô.

 

Tudo é passageiro

mesmo na memória

mesmo o momento

que entrou pra história.

 

E há quem diga

que estragou a foto

que perdeu foco

ou que foi muita luz.

 

Há quem diga

que está despenteado

que depois eu faço

que não tem porque.

 

Ora, ora, ó reticente

toda foto é inexistente

enquanto você resiste

ao click do obturador.

 

Ora, veja, ó reticente

toda foto é só do agora.

Ou você registra

ou já acabou.

A escolha da palavra

dezembro 4, 2019

Como posso ser poeta

e ser tão distraído?

As palavras vem me vindo

e vou colocando-as em ordem

inadvertido.

 

Como posso ser poeta

se não peso a palavra?

Não pondero

nem procuro a definição do vocábulo,

colho como um tubérculo.

 

Como posso ser poeta

e escrever tão impulsivamente?

Componho no de repente

sem grandes planos complexos

com apenas um ímpeto no peito

e uma inquietação na mão.

 

Como posso ser poeta?

Como posso ser se sou?

Agora

novembro 23, 2019

Antes que seja tarde

fale do amor

fale do horror

fale o que quer que seja

fale antes que amanheça.

 

Fale devagar ou fale depressa.

Não deixe de se falar.

Não deixe calar no silêncio

essa vontade imensa de gritar.

 

Fale, fale com tudo.

Fale e faça, aja,

não fique mudo.

É no silêncio que mora o medo

e no medo que acaba o mundo.

O Fazer

novembro 18, 2019

Quando paro para escrever

é quando a poesia some.

Deixo de vivê-la para gamaticá-la

esquematizar em ritmo e rima.

 

Porém, poesia sozinha não é nada.

O livro, em minha cabeça,

não tem graça.

Eis a labuta do poeta…

Peneirar a poesia da vida

em palavras.

Contínuo

novembro 18, 2019

Mar sobre pedra.

Maré cheia.

Uma ilha submersa.

A paz reina.

Pedra sobre mar.

Maré baixa.

Uma ilha no caminho

A paz finda.

Não é a mesma onda

Que ataca a mesma pedra.

Não é a mesma onda

Mas é a mesma força.

A pedra no caminho

É uma vítima do mar.

Posso não ver seu fim

Mas sei que acabará.

Não importa que não seja a mesma onda

Que ataca e quebra a mesma pedra.

Onda não leva orgulho

Onda não tem distinção

Que faça de tudo areia

Que faça de pedra, chão.

Fotógrafo

novembro 10, 2019

Quem vai fotografar o fotógrafo?

Que outras mãos carregarão a câmera

e terão o cuidado de olhar para aquele canto?

Aquele sujeito sentado

que olha tanto.

 

Quem vai fotografar o fotógrafo?

Quem saberá os detalhes do foco, do fundo, da luz

e enquadrará aquele coitado?

Ali sentado,

olhando sabe-se lá o que.

 

Quem vai fotografar o fotógrafo?

Não a noiva, não o padre, não o bêbado brincalhão…

O fotógrafo não estará no álbum,

nem na memória

muito menos no coração.

Talvez aparecerá com sua sombra, discreta.

Um reflexo…

 

Mas ali está… uma pessoa olha para o fotógrafo.

Seu nome ninguém sabe,

pelo visto é o poeta…

Mas quem vai escrever ao poeta?

permanência afetiva

abril 19, 2019

Tempo não é nada

para o coração curioso.

Vontade eterna de ser

e de estar com o outro.

Vontade sem rosto, sem lógica.

Um esbarrão na esquina

uma tarde na loja

um negócio de escola

um carimbo sem volta

O antigo, o novo, o acidental.

Existem vontades em outros planos

além do temporal.

Existe esse espaço de permanência

um casulo

que tece paciência

pois guarda tudo que pode ser bom

e aguarda.

 

É preciso ter essa força

de seguir ao estar cansando

de sorrir demasiado

triste.

É preciso ter essa força

para ser, e ver e estar

e conseguir ainda alcançar

o tão esperado depois.

É preciso ter essa força

para esquecer o passado

para não estar atrasado

consigo.

É preciso ter essa força

e é preciso ter essa graça

e é preciso ser sobre humano.

Mas atrás da porta

ou de baixo do pano

é preciso estar respirando.

Foi

agosto 17, 2018

Arranquei o ar do pulmão com a mão

joguei longe, junto com o vento.

E junto com o vento, foi levada a mão

carregando tudo que tivesse dentro.

 

Saiu de mim com reboco e tudo

papel de parede, tinta, fogão.

O box, a cama, o sofa novo

o sofá antigo e nosso colchão.

 

Vi voando pela janela

os velhos nomes que já sonhamos

as viagens que não fizemos

o resto de todos os anos.

 

Então fui junto, levado a esmo

sem ter de mim uma forma humana

fiquei solto, só saudade mesmo

saudade triste, que ainda ama.

Attraversiamo

agosto 4, 2018

Através do mar, através.

Através do medo.

Através dos gestos, através.

Através dos anos.

Atravesso o revés, atravesso o pano.

Atravessa o agudo,

o viés humano.

Através do dito,

Atravessando o engano,

Atravessado o findo,

no através, te amo.

Attraversiamo

Um silêncio milimétrico

Preenchido pelo olhar.

Vontade louca de ouvir e de falar.

 

Um silêncio centimétrico.

Um suspiro inesperado.

Vontade louca de ficar só ao seu lado.

 

Um silêncio métrico

Com toques de saudade.

Vontade louca de me dividir pela metade.

 

Um silêncio quilométrico.

O fim se faz presente.

Vontade louca de lembrar quem foi a gente.

Essa chuva

agosto 1, 2018

Essa chuva não me molha,

por mais que eu esteja sem teto.

Ela encharca as calçadas e os vasinhos

mas em mim, nenhum respingo, nem um teco.

Ando sem capa, sem guarda-chuva,

sem marquise que salve,

sem árvore que cubra.

 

E sigo seco, à contragosto.

 

Essa chuva não me molha,

hoje ela não é minha.

Mas para alguém encharcado, agora

ela é o cume da agonia.

Noções de tempo

fevereiro 3, 2015

Sinto o tempo
no digitar de cada palavra.
No meu silêncio enquanto penso
no ar que toma tempo para entrar
e que dentro de mim envelhece e vai embora.
Sinto o tempo no soar dos acordes
no completar das frases
na construção e conclusão de cada ideia.
Sinto o tempo seguir e não repetir
em cada releitura que faço deste poema
por toda lembrança e novidade da minha história
em toda sua eterna pressa e demora.

Lugares históricos

janeiro 22, 2014

Me perdi pelo caminho
a caminho de um lugar
fui indo, indo, indo
fui indo e me perdi.
Eu ia para alguma ruína, (sei lá)
(algum lugar famoso)
(algum lugar histórico)
Mas também, qual lugar não é?

Réveillon

janeiro 2, 2014

Quando a noite se estendeu,
O céu ouvia…
Estava eu do seu lado (você sorria)
E mesmo em quase completo breu,
Frente a um mar e ventania,
Era você quem eu amava,
Era você quem eu queria.

A insônia me ocupa o sono
e o futuro acaricia meus anseios.
Enquanto eu agonizo a liberdade,
amanhã cedo comprarei mais queijo.

O que serei além do que sou?
Cabe em mim o que não estou sendo?
Escrevo pra soar bonito
as dúvidas que me mantêm aceso.

Nesse mundo não há paz para gracinhas
se não se sabe contar piadas.
Assim são todas as coisas…
Para cada qual, sua própria parada.

Os dados estão postos sobre a mesa
e se antecipam quanto a sorte que virá.
Mas cabe a força da mão tremula
jogá-los pelo acaso, pelo sonho, contra o azar.

Eu temo o medo que tenho do futuro.
Temo mudo, com uma coragem pálida.
Mas enfrento com o coração batendo
e sigo indo enquanto houver mundo.

A saudade e suas amigas

novembro 27, 2013

Do tempo que já tive
um pouco, já vivi.
Deste pouco, pouco lembro…
De tudo que foi até hoje, lembro quase nada.

As fotos são as lembranças perdidas que voltam de vez em quando.
(e voltam acumuladas)
Vendo tudo que esqueci, recrio as memórias nos sorrisos de grupos
e paisagens.
Sinto saudades.

Mas essas saudades são traiçoeiras!
Pois são tão melhores (tão melhores) do que qualquer (qualquer) imagem.
Saudades, saudades… saudades de seiláoque.

Agora é tudo o que temos

outubro 8, 2013

Minha distração vagueia
não consigo prestar atenção.
O que vejo agora, esqueço
não controlo o que gravo
nem a minha divagação.

Respeito o esquecimento
como quem olha no espelho
como uma auto-absolvição.

Agora

outubro 2, 2013

O depois é uma péssima hora para fazer as coisas
só temos o agora.
Estamos sempre no agora.
E agora, sempre bate aquela preguiça
e agora, sempre bate aquela demora…

Agora é uma péssima hora para fazer as coisas,
agora é a hora que tenho para descansar
ou a hora em que já estou trabalhando.
Melhor deixar para depois do que deixar pra agora
o que em minha cabeça já está pronto
é ideal, se não for feito agora.

Contração

setembro 26, 2013

Os ombros tensos indicam
o mundo está lá acontecendo
e aqui estou eu parado.

Sofrimento onanista

setembro 12, 2013

Sofro implacavelmente
como quem sofre por pensamento
sabendo que de acordo com meu certo,
tem muita coisa errada.

Controle

setembro 11, 2013

Quando os dados balançam na mão nervosa
e tudo está frente ao acaso,
a sensação maior que pode haver no mundo,
a mais perto de ser deus…
É a de gritar o número
e dentre todas as possibilidades cabíveis entre 2 e 12,
cair o bendito esperado.
Eta momento sagrado.

Calado

setembro 3, 2013

Meu eu calado te adora
e descansa ao seu lado, lépido.
Te olha e te olha e te olha
e é olhado de volta, que belo.
Meu eu calado te adora
e adora teu eu calado.
No silêncio, eles namoram
na fala, eles se libertam.

asfixia

agosto 2, 2013

Sinto como se tivesse me afogando
e o pior de tudo é que eu respiro.
E embora a morte um dia seja alivio,
viver ainda é o que faço e não tem cura.

O desespero que me toma, não tem raiz.
São apertos sem razão que não desistem.
É árvore que cresce para a queda
uma forma de lenha pra poema.

Não há sono que me acalme o pensamento,
tão pouco dura, a paz de quando acordo.
Tenho plena consciência do que sinto…
É queda livre vendado contra o tempo.

Passo

julho 31, 2013

Hoje é dia para esses momentos
de ventos
de nuvens e penumbra.
Melancolia afoga o peito
e uma tristeza sem explicação
canta uma música melodiosa
enquanto o tempo passa,
enquanto eu passo com o tempo.

Nem na Terra

julho 31, 2013

Triste é quem vive sabendo
qualquer coisa além do óbvio.
E cabe ao longo da vida o cárcere cruel da vigília
e da constatação de que somos ridículos mortais errantes.
Triste é quem vive sabendo
que quase tudo deve permanecer sendo
do jeito que sempre foi.
No fundo somos apenas migalhas
feitos de preguiça, medo, violência e libido.

Camadas

maio 25, 2013

Mesmo quando chove
mesmo quando chove aquela forte chuva
acredito que lá no meio tem alguma nuvem
que está fazendo sol.

Poema com pressa

abril 15, 2013

Neste fim de domingo,
já sinto a nova semana.
Meu pouco sono se acumula,
a preguiça me emociona.
Segunda feira se impõe,
a pressa se acomoda.
O alarme se prepara,
a cama se posiciona.

Mais cinco dias estão vindo,
lá vem a pressa para toda hora.
O corpo cansado implora:
“não é hora de estar dormindo?”
Já indo, me emociono
com tamanha falta de tempo.
Ainda cansado sento e tento,
mesmo quase caindo,
escrever algum tipo de prosa.

A perda de tempo que tenho
não está nas madrugadas.
Está de fato nas horas cumpridas
nos atos de fardas
que me afastam da liberdade
de poder focar-me em fazer nada
ou então do que é mais importante
que é viver sem sofrer bastante
ou de escrever poemas tomando uma limonada.